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Os medos são antigos

with 6 comments

Escrevi esse texto originalmente prum projeto cujo o tema era SEXO. Era o primeiro de 15. Mas o mundo é muito estranho e o texto foi censurado. Não entendi a reserva. Não era um projeto para crianças. Tampouco um projeto de humor. Talvez esteja aí o meu erro. Disseram que era LIVRE, como sempre dizem, então vamos lá. Eles têm o direito de não bancar, e eu de não participar mais.  Mas se eu não tivesse esta mídia própria para publicar o que me desse vontade, agora era o momento de fazer um POEMA DE PROTESTO, risos. Não vai ser necessário. Nem seria divertido. E está fora de moda também.

PLAY NO CU

Quero começar pelo cu, assunto dominado por todos, já que cada um possui um exemplar – ou pelo menos deveria – localizado na retaguarda da carcaça. E a verdade é que embora muito discutido, o cu é comentado em algumas rodas com pouco desvelo. Poderia dizer também, se me permitem, com extremo tato.

É divertido pensar que um cu, com sua elaborada costura e descrição, furo tão determinante na funcionalidade da vida plena sobre a terra, possa gerar tanto desconforto. Um cu é só um cu?, destino final de tudo que se come, porta de entrada de tudo o que se queira.

O cu, para biquinhos franceses cul – sua pronúncia é anunciada nos dicionários, ironicamente, como (ky) – é ainda protagonista de expressões muito pontuais da Língua Portuguesa como “o cu do mundo”, “fulano nasceu com o cu pra lua”, “fiquei com o cu não mão”, e o sugestivo porém banalizado “vai tomar no cu”.

Com exceção do pintinho da piada que nasceu sem cu e explodiu, e do primo de uma amiga que veio ao mundo nas mesmas condições – o nome do garoto eu jamais revelaria – não conheço nenhuma outra pessoa desprovida de tal peculiaridade.

Deixemos de lado as exceções históricas e as especulações, e reflitamos agora sobre parte da trajetória do cu no mundo da arte, já que da vida cada um que cuide da sua.

É sabido que os poetas franceses Paul Verlaine e Rimbaud se amaram muito, e com muito furor, mas é do desconhecimento de muitos um poema escrito pelos dois em 1892 – parte da coletânea Hommes publicada postumamente – SONETO DO OLHO DO CU.

A tradução é de Heloísa Jahn e está no livro Para ser caluniado – Poemas Eróticos editado pela Editora Brasiliense em 1984, mas a beleza dos detalhes é invenção e culpa exclusivas dos poetas. E embora a poesia erótica não seja uma modalidade que emocione muito, este é um caso que gostaria de dividir.

SONETO DO OLHO DO CU

Obscuro e franzido como um cravo roxo,
Humilde ele respira escondido na espuma,
Úmido ainda do amor que pelas curvas suaves
Dos glúteos brancos desce à orla de sua auréola.

Uns filamentos, como lágrimas de leite,
Choraram, ao vento inclemente que os expulsa,
Passando por calhaus de uma argila vermelha,
Para escorrer, por fim, ao longo das encostas.

Muita vez minha boca uniu-se a essa ventosa;
Sem poder ter o coito material, minha alma
Fez dele um lacrimário, um ninho de soluços.

Ele é tonta azeitona, a flauta carinhosa,
Tudo por onde desce a divina pralina,
Canãa feminino que eclode na umidade.

Você não deve ter muita certeza sobre o significado de PRALINA, ou talvez não entenda a precisão e doçura de um CANÃA FEMININO QUE ECLODE NA UMIDADE, mas estamos diante do cu de Verlaine e do cu de Rimbaud em versos, e de todos os outros cus que porventura tenham conhecido. Então admirai! Respeitai! Embora um cu poético não deixe de ser um cu.

A pergunta persiste: um cu é só um cu?

Caminhemos mais e temos dois exemplos muitos conhecidos de COVER CU, capas de trabalhos que foram vistas com muito espanto – e, em alguns casos, até hoje o são – quando expuseram e replicaram o cu em sua intimidade

A capa pop que ganhou a História do Olho (recorrente devoção francesa), de Bataille, livro escrito em 1928 que desamarrou tanto tabu ao redor do globo, esbanjando um lindo e delicado instrumento:

historiaolho

E Tom Zé passando batido pela censura em 73:

paologo1
Eu não sei de nada, eu não sei de nada, eu não sei nada, eu não sei de nada…

Me lembro também de O OLHO DO MEU PAI

28_mhg_ralo

O personagem de Selton Mello e sua obsessiva lembrança do pai no filme o Cheiro do Ralo, baseado no livro de Lourenço Mutarelli.

E pra fechar, a última notícia artística que tive sobre o cu, uma animação de Rodrigo Burdman para conto de Marcelino Freire com locução do Paulo Cesar Pereio que já foi vista mais de 70 mil vezes até este momento.

Play no cu:

Written by bb

March 19, 2009 at 3:50 pm

6 Responses

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  1. AHAHAHAHHAAHHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHA

    minha cara, os medos são antigos, mas fase anal também é. viva o cu, e viva a infância e dormir com a mão ali.

    me senti feliz de ter sido citada de maneira bizola. a famíglia agradece.

    lembrei tb de um filme de edgard navarro. “o superoutro”. cenas de close de um cu liberando merda. o odeon gritou, eu achei normal.

    em tempo: hoje fui ao hospital e estou com verme. uma das piores espécies. esqueci o nome agora. tomei remédio e vamos ver se o bicho morre. tomara. já perdi 5kg nessa brincadeirinha lombrigal.

    beijos, brguna!

    lettuce

    March 19, 2009 at 5:10 pm

  2. Tu tem muito CUlhão.

    aCUada

    March 19, 2009 at 5:26 pm

  3. a metafísica presente no cu sempre assusta.

    isaac

    March 19, 2009 at 6:35 pm

  4. Pedir para escrever sobre sexo e depois censurar? Os cuzões que fizeram isso não merecem o nome, deviam ser “chingados” [lo digo en mexicano] até sairem com o rabo entre as pernas, que aliás é o lugar aliás onde que o rabo humano fica. Sabe como é, este é irmão deste outro, que é primo daquele outro…

    Paulo Moreira

    March 21, 2009 at 5:43 am

  5. Essa capa do Tom Zé é algo. e a La Prière do Man Ray na capa do G. Battaile é um negócio impressionante demais, é uma das melhores imagens-ideias que eu já vi .. como diria o montanhista: “Só o cume interessa”… realmente essa censura foi um, sei lá, paradoxo talvez.. só a ficção é verossímil…

    Thomé

    March 25, 2009 at 3:11 am

  6. FANTÁSTICÚ!

    claudia guay

    March 30, 2009 at 6:20 pm


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