mídias virgens & condessa buffet

nuvenzinha, somatório de vigores, sementério de notícias, melancoriza e dengo

Adverbiamento sentimentoso

with 2 comments

To passando os melhores momentos do mundo lendo a trilogia Os Condendos, do Oswald de Andrade. Passei nervoso semelhante lendo Serafim Ponte-grande e Memórias Sentimentais de João Miramar, mas Alma, seu primeiro romance e parte I da trilhogia, é tão maravilhosamente arrebatador, fascinantemente mágico, enormemente insano e poeticamente desencontrado que não parece que estou só lendo, mas sim ouvindo. Tenho vontade de lê-lo alto, é um leitura cruel de se fazer em silêncio. Mas, quando damos voz a algum texto sempre corremos o risco do resultado ser algo como o Primeiro Testamento segundo Cid Moreira para folhetos de jornal popular, então prefiro trascrever um trecho:

::

João do Carmo aproximou-se, no sereno da noite, para receber a resposta de sua ousada carta. Continha a felicidade dentro do peito musculoso de nadador; segurava-a como um pássaro vivo. Ela estava ali, pálida silhueta, esperando-o. Imobilizava pupilas verdes de veludo e cristal na moldura das grandes alvas súplices.
Ele continha a felicidade dentro do peito musculoso de nadador, segurava-a como um pássaro vivo.
Interpelou-a, entregando-se todo, passando-lhe pelas grades, numa oferenda física, os olhos e o peito que badalava.

Mas uma punhalada certa alcançou-lhe o coração confiante. O moleque Bastião entrou da rua. Ela dissera-lhe que tinha outro amor. Ficara conversando. Pareceu-lhe ver o cão achegar-se latindo. Pareceu-lhe vê-la ir para dentro.

Caminhou na direção do seu quarto. Recordava o diálogo. Ela dissera que preferia o outro porque ele a amava por vício. Ele gritara estranguladamente que não. Era do fundo do coração que a queria.

Acendeu a lâmpada elétrica. Sentia-se só no seu naufrágio. Sentara-se. Depois ergueu-se com um grito apenas sufocado. Andou. Repetiu com os punhos amarrados versos.

Sentiu que qualquer coisa ria horrivelmente de si, da sua situação de telegrafista, do seu crédulo romance, dos seus grossos músculos inúteis.

Chegou-se a janela num confuso palavrório mental, onde havia muito destino, muita pesquisa do eterno coração das mulheres.

Encostou a cabeça à vidraça fria. E, da rua, subiu-lhe às têmporas, pelos ouvidos, uma vaia infinita de gritos.

Saiu. Pela avenida, sob os bicos de gás e as árvores espaçadas, ia declamando todos os versos altivos que sabia. Recitava Bouilhet:

Tu n’as jamais été, dans tes jours lês plus rares
Qu’um banal instrument  sous mon mon archet vainqueur
Et, comme un air sonne au bois cruex des guitars
J’ai fait chanter mon rêve au vide de ton couer

Descia desencontradamente para a Ponte-Grande. Largá-la-ia. Revelara-se de uma perversão inacreditável.

Terrível, lancinante, gritava pela Avenida Tiradentes.

Chegou à ponte. Havia gente parada. O rio, grosso e noturno, rodava. E ele ficou chorando baixo, ao grande ar do parapeito, entre lampiões.

::

Ninguém sofre bonito como antigamente, à luz de lampiões. Em 22, a lâmpada ainda era novidade, era lâmpada elétrica, e as pessoas nadavam no Tietê. Mas SILHETA e SÚPLICES vão ser eternamente palavras difíceis e lindas. E ainda posso ouvir, terrível e lancinante, os gritos pela Avenida Tiradentes estremecendo a Pinacoteca do Estado. Ah, São Paulo, cheguei tarde.

Written by bb

October 28, 2008 at 12:12 am

2 Responses

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  1. Mulher essa trilogia é de uma beleza incrivi e de uma tristeza tão triste. Tem um poema lá no blog dos sete que eu escrevi com trechos do Alma, é o One Ride Only. O Oswald é foda pra caralho mermo, esse filhodaputa. Depois pega pra ler o Marco Zero, o sotaque dos imigrantes e emigrantes é tão real quanto el Cid falando. Tu escuta todo mundo te falando as paradas, siniiiistro…

    dia sete te pego de jeito

    Marofinha

    October 28, 2008 at 5:09 am

  2. Nunca li Oswald.
    Gostei desse trecho.
    E quando estiver novamente pelas bandas da Pinacoteca, e agora eu sei que por ali existe uma Avenida Tiradentes, irei ouvir choros e ver luzes que não vêm de lâmpadas elétricas.

    Um abraço.
    E saudade de São Paulo.

    carolline

    November 2, 2008 at 10:45 pm


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