MACBETH
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Às vezes tenho a sensação de que nada do que acontece acontece, porque nada acontece sem interrupção, nada perdura nem persevera nem se recorda incessantemente, e até a mais monótona e rotineira das existências vai se anulando e negando a si mesma em sua aparente repetição até que nada seja nada e ninguém seja ninguém que tenham sido antes, e a frágil roda do mundo é empurrada por desmemoriados que ouvem e vêem e sabem o que não se diz nem sucede nem é cognoscível nem comprovável. O que ocorre é idêntico ao que não ocorre, o que descartamos ou deixamos passar idêntico ao que não provamos, e no entanto vai-nos a vida e vai-se-nos a vida em escolher, em rejeitar e selecionar, em traçar uma linha que separe essas coisas que são idênticas e faça de nossa história uma história única que recordemos e possa ser contada. Dirigimos toda a nossa inteligência, os nossos sentidos e o nosso afã à tarefa de discernir o que será nivelado, ou já está, e por isso estamos cheios de arrependimentos e de ocasiões perdidas, de confirmações e reafirmações e ocasiões aproveitadas, quando o certo é que nada se afirma e tudo vai se perdendo. Ou talvez que nunca tenha havido nada.
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Coração tão branco, Javier Marías – Cia das Letras, 2008



Bruna,
tô lendo você no BLABLABlogue e digo: gosto muito de verdade. É conversa impressa, impressionante.
Bêjo
Petê Rissatti
July 10, 2009 at 3:28 pm