Archive for March 2009
Insanimentos sobre tipos
Na dúvida se o “je”, segunda sílaba da palavra gorjeta, é com G ou com j, pense que o rabinho do j é parecido com uma mãozinha.
No caso, a mãozinha que oferta o agrado.
Reparem:
Podemos reforçar esta associação facilitadora da boa ortografia com o caso do j maiúsculo, no qual vemos a mãozinha que recebe o agrado, bastante ávida:
Percebam que mãozinha curvada!, que não só já recebeu o agrado como já está intencionada em escondê-lo dentro da palma.
Um fenônomeno que poderíamos interpretar como VERGONHA, sentimento incabível aqui, visto que gorjeta não é esmola.
Vocês me perguntam: e qual tipo de associação mais simples eu posso fazer para não pensar que é escrito com G?
Ora, pense que o que cai do G minúsculo (para os que usam cadernos pautados) pra baixo da linha é parecido com o tipo de nó que os caubóis usam para laçar vacas:

E o universo das vacas é muito distante do universo da gorjeta.
Para os que foram além na dúvida e pensaram em escrever JORJETA ou JORGETA, eu não tenho nenhuma dica para dar além de que JORGE é um substantivo próprio masculino.

Mais uma proposta de propósito.
Acelerou
Tardou demais, mas até que enfim fizeram uma entrevista longa com o Rei de Pindorama. Embora eu ache que ele mereça uma edição especial.
E até que enfim a Trip liberou o conteúdo inteiro nas interwebs.
É liberar ou falir, o Chimbinha pode dar uma aula sobre isso:
(…)
Muita gente diz que a Banda Calypso inventou um novo modelo de negócio, com essa história de não ter gravadora, de vender disco em show ou em supermercado, de fazer distribuição via camelôs. Esse esquema foi ideia sua?
Foi uma ideia da necessidade. Eu não parei para bolar. Fui fazendo. Como não tinha gravadora, era a gente que fazia a distribuição no começo. A Joelma ficava no telefone tirando os pedidos. Eu ia no correio e mandava pro Brasil todo. Começou assim.
Esse modelo acabou sendo imitado por muitas bandas, principalmente aqui no Pará, não é?
A maioria dos artistas daqui faz isso. Hoje não existe gravadora no Norte e no Nordeste, só no Rio e em São Paulo. Então tivemos que fazer isso aqui para viver de música, porque as gravadoras foram embora daqui. E, se continuar desse jeito, elas vão embora do Brasil.
Você soube que um jornalista americano chamado Chris Anderson, editor da revista Wired, citou a Banda Calypso no livro Free!, sobre a economia gratuita?
Nunca ouvi falar. Mas que coisa boa. É muito bom esse modelo. Acho que os artistas mais conhecidos também podiam fazer, como Zezé di Camargo, a turma da MPB. Na hora em que um deles de nome entrar, vai dar uma força para a gente continuar mais alguns anos com esse modelo.
Você acha que não vai durar muito mais?
Acho que esse modelo deu certo por dez anos. Mas já está mudando. Hoje ninguém consegue vender disco em loja. Algumas bandas já fazem o seguinte: na compra de um ingresso para o show, leva um CD de graça. Esse é o modelo que estão usando.
O Calypso vai usar também?
Não sei. Se fecharem as lojas todas, vamos ter que fazer isso.
(…)
Goibada para sobremesa
Depois dos Beatle Juice do Marc Valega

A bistrô criou os sensacionaises Sucos Bárbaros

Dá pra baixar as embalagens nas respectivas fontes.
Via Caju.
Cristo Baleado
Não é novidade que o meu querido Hills é uma cidade linda porém aposentada, não tem muita coisa pra fazer nem lugar pra trabalhar.
Já foi mais linda, na verdade, vive de saudade e de cartões postais impressos há muitos anos. Da última vez que estive lá estava mais sujo, mais bagunçado, mais feio.
E aí recebo notícias dos meus amigos queridos e não consigo não me assustar com o CLIMÁ DE REVOLTA. É o mesmo, ou talvez pior do que quando deixei a cidade:
ontem teve tiroteio em copacabana, botafogo e humaitá. comércio e túnel fechado e foi bala perdida até pra quem mora no jardim botânico. 6 mortos na santa clara. essa é a cidade maravilhosa?
É como subir a Consolação e esbarrar em 6 corpos até chegar a Paulista. Tipo videogame. Sendo que a Santa Clara é MUITO menor, e é uma RUA, não uma AVENIDA.
Eu que cresci RIBEIRINHA das favelas no Rio e já vi coisas como
1. CABEÇA DENTRO DE LATÃO DE LIXO EM ACARI
2. TRONCO SOLTO SEM OS MEMBROS
3. UM MALUCO COM UM TIRO NA CARA, JOGADO NA BEIRA DO VALÃO
não consigo não me assustar com essas notícias.
Os medos são antigos
Escrevi esse texto originalmente prum projeto cujo o tema era SEXO. Era o primeiro de 15. Mas o mundo é muito estranho e o texto foi censurado. Não entendi a reserva. Não era um projeto para crianças. Tampouco um projeto de humor. Talvez esteja aí o meu erro. Disseram que era LIVRE, como sempre dizem, então vamos lá. Eles têm o direito de não bancar, e eu de não participar mais. Mas se eu não tivesse esta mídia própria para publicar o que me desse vontade, agora era o momento de fazer um POEMA DE PROTESTO, risos. Não vai ser necessário. Nem seria divertido. E está fora de moda também.
PLAY NO CU
Quero começar pelo cu, assunto dominado por todos, já que cada um possui um exemplar – ou pelo menos deveria – localizado na retaguarda da carcaça. E a verdade é que embora muito discutido, o cu é comentado em algumas rodas com pouco desvelo. Poderia dizer também, se me permitem, com extremo tato.
É divertido pensar que um cu, com sua elaborada costura e descrição, furo tão determinante na funcionalidade da vida plena sobre a terra, possa gerar tanto desconforto. Um cu é só um cu?, destino final de tudo que se come, porta de entrada de tudo o que se queira.
O cu, para biquinhos franceses cul – sua pronúncia é anunciada nos dicionários, ironicamente, como (ky) – é ainda protagonista de expressões muito pontuais da Língua Portuguesa como “o cu do mundo”, “fulano nasceu com o cu pra lua”, “fiquei com o cu não mão”, e o sugestivo porém banalizado “vai tomar no cu”.
Com exceção do pintinho da piada que nasceu sem cu e explodiu, e do primo de uma amiga que veio ao mundo nas mesmas condições – o nome do garoto eu jamais revelaria – não conheço nenhuma outra pessoa desprovida de tal peculiaridade.
Deixemos de lado as exceções históricas e as especulações, e reflitamos agora sobre parte da trajetória do cu no mundo da arte, já que da vida cada um que cuide da sua.
É sabido que os poetas franceses Paul Verlaine e Rimbaud se amaram muito, e com muito furor, mas é do desconhecimento de muitos um poema escrito pelos dois em 1892 – parte da coletânea Hommes publicada postumamente – SONETO DO OLHO DO CU.
A tradução é de Heloísa Jahn e está no livro Para ser caluniado – Poemas Eróticos editado pela Editora Brasiliense em 1984, mas a beleza dos detalhes é invenção e culpa exclusivas dos poetas. E embora a poesia erótica não seja uma modalidade que emocione muito, este é um caso que gostaria de dividir.
SONETO DO OLHO DO CU
Obscuro e franzido como um cravo roxo,
Humilde ele respira escondido na espuma,
Úmido ainda do amor que pelas curvas suaves
Dos glúteos brancos desce à orla de sua auréola.
Uns filamentos, como lágrimas de leite,
Choraram, ao vento inclemente que os expulsa,
Passando por calhaus de uma argila vermelha,
Para escorrer, por fim, ao longo das encostas.
Muita vez minha boca uniu-se a essa ventosa;
Sem poder ter o coito material, minha alma
Fez dele um lacrimário, um ninho de soluços.
Ele é tonta azeitona, a flauta carinhosa,
Tudo por onde desce a divina pralina,
Canãa feminino que eclode na umidade.
Você não deve ter muita certeza sobre o significado de PRALINA, ou talvez não entenda a precisão e doçura de um CANÃA FEMININO QUE ECLODE NA UMIDADE, mas estamos diante do cu de Verlaine e do cu de Rimbaud em versos, e de todos os outros cus que porventura tenham conhecido. Então admirai! Respeitai! Embora um cu poético não deixe de ser um cu.
A pergunta persiste: um cu é só um cu?
Caminhemos mais e temos dois exemplos muitos conhecidos de COVER CU, capas de trabalhos que foram vistas com muito espanto – e, em alguns casos, até hoje o são – quando expuseram e replicaram o cu em sua intimidade
A capa pop que ganhou a História do Olho (recorrente devoção francesa), de Bataille, livro escrito em 1928 que desamarrou tanto tabu ao redor do globo, esbanjando um lindo e delicado instrumento:

E Tom Zé passando batido pela censura em 73:

Eu não sei de nada, eu não sei de nada, eu não sei nada, eu não sei de nada…
Me lembro também de O OLHO DO MEU PAI

O personagem de Selton Mello e sua obsessiva lembrança do pai no filme o Cheiro do Ralo, baseado no livro de Lourenço Mutarelli.
E pra fechar, a última notícia artística que tive sobre o cu, uma animação de Rodrigo Burdman para conto de Marcelino Freire com locução do Paulo Cesar Pereio que já foi vista mais de 70 mil vezes até este momento.
Play no cu:
A “espiritualidade cristã” e o cotidiano
Não sei qual visão de hoje de manhã foi mais inusitada:
1. uma menina linda, mas linda mesmo tipo COLOSSO DE RHODES, lendo Dias Melhores Virão no ônibus. É inevitável pensar de relance que pessoas com beleza TURÍSTICA são autosuficientes, e não sofrem, e não tem caraca.
2. um Honda Civic zero com o seguinte adesivo “Tenho a marca da promessa” saindo de um prédio na Vila Nova Conceição. Dei um googlezinho e descobri que muitas pessoas, fora e dentro da Vila Nova Conceição, também tem a marca da promessa
Especial José Augusto TRU
Sinto inexplicável falta do mela-cueca, dos bons cantores cafona-pureza, dos bailinhos que não vivi. Sempre me repito. Não é pra qualquer um cantar com gosto a dor mais universal do mundo, a de cotovelo. Tem que sentir, já dizia Reginaldo Rossi.
Acho que foi o tanto Roberto Carlos, José Augusto, Paulo Sérgio, Adilson Ramos, Márcio Greick, Fernando Mendes, Altemar Dutra, Evaldo Braga, Cauby Peixoto, Maria Bethânia e Dalva de Oliveira que eu cresci ouvindo em casa que me fez assim, AMOROSA.
E cafona, claro.
Por isso vos deixo José Augusto cantando Ritmo da Chuva,
Coisinha Estúpida do Sinatrão em primorosa versão duo com Vanessa, do extinto Trem da Alegria e posterior, mas também exinto, Luan e Vanessa:
De que vale tudo na vida, o funk – no sentido George Clinton da palavra – brasileiro brega mais legal que existe, com cordas e o caralho:
Chuvas de verão, não a sensacional do Fernando Lobo que o Caetano gravou, mas aquela do refrão: navegar teus sonhos/ regar teus sentimeeeeeeeentos/ orvalho de amor, flor de pensameeeeento (iê iê)/ nuvem passageira, inveeerno de paixãaaao/ amor de primavera em chuvas de verãaaaaao. Que, aliás, é a cara do Fagner. Nunca entendi porque ele não gravou:
E quase morri com a versão do Mariano pra Meu Destino é você
50 anos de Motown
Via Caju
Droguinhas NOT
Li hoje na Folia de Çampaulo que a Galeria Millan vai pendurar na sua brancura, a partir de semana que vem, as monotipias em papel de arroz da Mira Schendel.
Fik sperto, começa dia 18.
Já tinha visto nas Interwebs essa proposta, mas de perto nunca. Vou lá ver porque estou sem tempo de ir ao MOMA. Gosto de qualquer bagunça com letra e rabisco e aplicações MONO em papel.
A Cosac podia aproveitar e lançar um livro com os desenho-poema. Eu compro tudo se encalhar.




